A convivência escolar e o meio ambiente
O texto do artigo do Dr. Henry Smith, que se encontra logo abaixo, pode
e deve ser utilizado em qualquer momento do processo de aprendizagem
(coordenação pedagógica, sala de aula, gincanas, reunião de pais e mestres,
entre outros) como um instrumento de reflexão acerca dos valores que permeiam
nossas noções para a convivência entre os seres humanos e destes com os
elementos da natureza.
Decorridos quase dois séculos da carta do cacique indígena Seatle ao Presidente do Estados Unidos, suas lições permanecem atuais e proféticas, para todos aqueles que sabem enxergar no fundo do conteúdo de sua mensagem.
A carta do cacique Seatle é uma lição
inesgotável de amor à natureza e à vida, que permanece na consciência de milhões de pessoas em todas as partes do mundo. É o hino de todos aqueles que amam a natureza e tudo o que nela vive. A cada leitura, renovamos os ensinamentos que ali estão.
Serve para ler e reler e passar adiante para que todos a conheçam.
No Brasil, existiam em torno de 4 milhões de
indígenas, quando os colonizadores chegaram. Hoje, restam cerca de 200 mil! Embora o indígena tenha contribuído de forma essencial para a miscigenação da raça brasileira, é certo que foram sendo expulsos de suas terras pelos exploradores e eliminados por doenças contraídas através do convívio com os brancos.
Atualmente, continuam sofrendo a invasão de suas
terras por madeireiros, fazendeiros e garimpeiros, seus principais algozes.
É fundamental que sejam preservadas as riquezas
dessas culturas, suas danças, ritos, conhecimentos sobre as plantas e animais e as formas de viver em harmonia com a natureza. Os indígenas possuem uma sabedoria milenar que precisamos aprender a ouvir.
A história dos indígenas em cada país onde
existiam, antes do homem branco, é diferente nas suas particularidades, mas no seu conteúdo são iguais. Nos Estados Unidos ou no Brasil, os problemas enfrentados pelos indígenas foram os mesmos. Daí esse sentimento de solidariedade e cooperação que existe entre os diferentes povos indígenas e essa sabedoria milenar da qual todos nós temos muito que aprender.
O referido texto foi traduzido pela equipe de Floresta Brasil
diretamente do artigo original, publicado em inglês em 1887, e pode ser
encontrado na seção em língua inglesa da página: http://www.florestabrasil.org.br.
O velho cacique Seattle era o maior índio que eu jamais havia visto. E o
que tinha aparência mais nobre. Em seus mocassins, ele media mais de 1,80m,
ombros largos, tórax amplo e traços finos. Seus olhos eram grandes,
inteligentes, expressemos e amigáveis quando em repouso, e espelhavam fielmente
os variados estados de espírito da grande alma que olhava através deles.
Normalmente ele era solene, calado e digno, porém nas grandes ocasiões movia-se
na multidão como um Titã entre Liliputianos, e o que dissesse era lei.
Quando se levantava para falar, em reuniões, ou para oferecer conselho,
todos os olhos se voltavam para ele, e então frases profundas, sonoras e eloquentes
fluíam de seus lábios assim como trovões de cataratas fluindo continuamente de
fontes inexauríveis. Suas diretrizes soavam tão nobres como teriam soado
aquelas do mais cultivado chefe militar que estivesse no comando das forças de
todo o continente. Nem sua eloquência, nem sua dignidade ou sua graça haviam
sido adquiridas. Elas eram tão próprias da sua personalidade quanto as folhas e
as flores o são em um pessegueiro em flor.
Sua influência era maravilhosa. Ele poderia ter sido um imperador, mas
todos os seus instintos eram democráticos, e ele comandava os seus leais
cidadãos com suavidade e com paternal benignidade.
Ele sempre era alvo de especial atenção pelo homem branco,
principalmente quando sentado à sua mesa. Era nessas ocasiões que ele
demonstrava, mais do que em qualquer outro lugar, o cavalheirismo que lhe era
genuíno.
Assim que o Governador Stevens chegou em Seattle e disse aos nativos que
tinha sido indicado com comissário para assuntos indígenas para o território de
Washington, estes lhe prepararam recepção frente dos escritórios do Dr.
Maynard's, na margem próxima da Rua Principal - Main Street. A baía enxameava
de canoas enquanto a margem esta tomada por uma morena e movimentada massa
humana. Quando o timbre de trombeta da voz do velho cacique espalhou-se sobre a
imensa multidão como o rufar de um tambor, formou-se um silêncio tão instantâneo
e perfeito como aquele que segue o crack do trovão em um céu limpo.
Sendo então apresentado à multidão nativa pelo Dr. Maynard, em um tom
conversacional, direto e objetivo, o Governador deu imediatamente início a uma
explanação sobre sua missão, que é conhecida demais para que requeira
recapitulação.
Quando ele se sentou, o cacique Seattle levantou-se com a dignidade de
um senador que carrega em seus ombros a responsabilidade sobre uma grande
nação.
Colocando uma mão sobre a cabeça do Governador, e lentamente apontando para o céu com o dedo indicador da outra,
em tom solene e impressionante, começou seu memorável pronunciamento.
Fonte: Trechos de um
diário: O Cacique Seattle: Um cavalheiro
por instinto. 10º artigo da série “Primeiras Reminiscências” - Seattle
Sunday Star, 29 de outubro de 1887 do articulista Henry Smith (tradução livre,
pela equipe de Floresta Brasil).
Texto completo da carta que o índio Seattle,
cacique da tribo Suquamish, escreveu, em 1855, para o então Presidente dos
Estados Unidos, Franklin Pierce:
O Grande Chefe de Washington mandou dizer que
deseja comprar a nossa terra. O Grande Chefe assegurou-nos também de sua
amizade e benevolência. Isto é gentil de sua parte, pois sabemos que ele não
precisa da nossa amizade. Vamos, porém, pensar em sua oferta, pois sabemos que
se não o fizermos, o homem branco virá com armas e tomará nossa terra. O Grande
Chefe de Washington pode confiar no que o Chefe Seattle diz, com a mesma
certeza com que nossos irmãos brancos podem confiar na alteração das estações
do ano. Minha palavra é como as estrelas - elas nuca empalidecem. Como podes
comprar ou vender o céu, o calor da terra? Tal idéia nos é estranha. Se não
somos da pureza do ar ou do resplendor da água, como então podes comprá-los?
Cada torrão desta terra é sagrado para meu povo. Cada folha reluzente de
pinheiro, cada praia arenosa, cada clareira e inseto a zumbir são sagrados nas
tradições e na consciência do meu povo. A seiva que circula nas árvores carrega
consigo as recordações do homem vermelho. O homem branco esquece a sua terra
natal, quando, depois de morto vai vagar por entre as estrelas. Os nossos
mortos nunca esquecem esta formosa terra, pois ela é a mãe do homem vermelho.
Somos parte da terra e ela é parte de nós. As flores perfumadas são nossas
irmãs; o cervo, o cavalo, a grande águia - são nossos irmãos. As cristas
rochosas, os sumos das campinas, o calor que emana do corpo de um mustang, o
homem - todos pertencem à mesma família. Portanto quando o Grande Chefe de
Washington manda dizer que deseja comprar nossa terra, ele exige muito de nós.
O Grande Chefe manda dizer que irá reservar para nós um lugar em que possamos
viver confortavelmente. Ele será nosso pai e nós seremos seus filhos. Portanto
vamos considerar a tua oferta de comprar nossa terra. Mas não vai ser fácil,
não. Porque esta terra é para nós sagrada.
Esta água brilhante que corre nos rios e regatos não é apenas água, mas sim o
sangue de nossos ancestrais. Se te vendemos a terra, terás de te lembrar que
ela é sagrada e terás de ensinar a teus filhos que é sagrada e que cada reflexo
espectral na água límpida dos lagos conta os eventos e as recordações da vida
de meu povo. O rumorejar da água é a voz do pai de meu pai. Os rios são irmãos,
eles apagam nossa sede. Os rios transportam nossas cargas e alimentam nossos
filhos. Se te vendermos nossa terra, terás de te lembrar e ensinar a teus
filhos que os rios são irmãos nossos e teus, e terás de dispensar aos rios a
afabilidade que darias a um irmão. Sabemos que o homem branco não compreende o
nosso modo de viver. Para ele um lote de terra é igual a outro, porque ele é um
forasteiro que chega na calada da noite e tira da terra tudo o que necessita. A
terra não é sua irmã, mais sim sua inimiga, e depois de a conquistar, ele vai
embora. Deixa para trás os túmulos de seus antepassados e nem se importa.
Arrebata a terra das mãos de seus filhos e não se importa. Ficam esquecidos a
sepultura de seu pai e o direito de seus filhos à herança. Ele trata sua mão -
a terra, e seu irmão - o céu, como coisas que podem ser compradas, saqueadas,
vendidas como ovelha ou miçanga cintilante.
Sua voracidade arruinará a terra, deixando para trás apenas um deserto: Não
sei. Nossos modos diferem dos teus. A vista de tuas cidades causa tormento aos
do homem vermelho. Mas talvez isto seja assim por ser o homem vermelho um
selvagem que de nada entende. Não há sequer um lugar calmo nas cidades do homem
branco. Não há lugar onde se possa ouvir o desabrochar da folhagem na primavera
ou o tinir das asas de um inseto. Mas talvez assim seja por ser eu um selvagem
que nada compreende. O barulho parece insultar os ouvidos. E que vida é aquela
se um homem não pode ouvir a voz solitária do curiango ou de noite, a conversa
dos sapos em volta de um brejo? Sou um homem vermelho e nada compreendo. O
índio prefere o suave sussurro do vento, purificado por uma chuva do meio-dia,
ou recendendo o pinheiro. O ar é precioso para o homem vermelho, porque todas
as criaturas respiram em comum - os animais, as árvores, o homem. O homem
branco parece não perceber o ar que respira. Como um moribundo em prolongada
agonia, ele é insensível ao ar fétido. Mas se te vendermos nossa terra, terás
de te lembrar que o ar é precioso para nós, que o ar reparte seu espírito com
toda a vida que ele sustenta. O vento que deu ao nosso bisavô o seu primeiro
sopro de vida, também recebe seu último suspiro. E se te vendermos a nossa
terra, deverás mantê-la reservada, feita santuário, como um lugar em que o
próprio homem branco possa ir saborear o vento, adoçado coma fragrância das
flores campestres.
Assim pois, vamos considerar tua oferta para comprar a nossa terra. Se
decidirmos aceitar, farei uma condição: O homem branco deve tratar os animais
desta terra como se fossem seus irmãos. Sou um selvagem e desconheço que possa
ser de outro jeito. Tenho visto milhares de bisões apodrecendo na pradaria, abandonados
pelo homem branco que os abatia a tiros disparados do trem em movimento. Sou um
selvagem e não compreendo como um fumegante cavalo de ferro possa ser mais
importante do que o bisão que nós, os índios, matamos apenas para o sustento de
nossa vida. O que é o homem sem os animais? Se todos os animais acabassem, o
homem morreria de uma grande solidão de espírito. Porque tudo quanto acontece
aos animais logo acontece ao homem. Tudo está relacionado entre si. Deves
ensinar a teus filhos que o chão debaixo de teus pés são as cinzas de nossos
antepassados. Para que tenham respeito ao país, conta a teus filhos que a
riqueza da terra são as vidas da parentela nossa. Ensina a teus filhos o que
temos ensinado aos nossos: que a terra é nossa mãe. Tudo quanto fere a terra
fere os filhos da terra. Se os homens cospem no chão, cospem sobre eles
próprios. De uma coisa sabemos: a terra não pertence ao homem, é o homem que
pertence à terra. Disto temos certeza. Todas as coisas estão interligadas, como
o sangue que une uma família. Tudo está relacionado entre si. Tudo quanto
agride a terra, agride os filhos da terra. Não foi o homem quem teceu a trama
de vida: ele é meramente um fio da mesma. Tudo que ele fizer à trama, a si
próprio fará.
Mas nós vamos considerar a vossa oferta e ir para a reserva que destinais ao
meu povo. Viveremos à parte e em paz. Que nos importa o lugar onde passarem os
o resto dos nossos dias? Já não serão muitos. Ainda algumas horas, alguns
invernos e não restará qualquer dos filhos das grandes tribos que viveram
outrora nestas terras, ou que vagueiam ainda nas florestas. Nenhum estará cá
para chorar as sepulturas de um povo tão poderoso e tão cheio de esperança como
o vosso. Mas porque chorar o fim do meu povo? As tribos são constituídas por homens
e nada mais. E os homens vão e vêm como as vagas do mar.
Nem o próprio homem branco pode escapar ao destino comum. Apesar de tudo talvez
sejamos irmãos, veremos. Mas, nós sabemos uma coisa, que o homem branco talvez
venha a descobrir um dia, o nosso Deus é o mesmo Deus. Ele é o Deus dos homens
e a Sua misericórdia é a mesma para o homem de pele vermelha e para o homem
branco. A terra é preciosa aos olhos de Deus e quem ofende a terra cobre o seu
criador de desprezo. O homem branco perecerá também e, quem sabe, antes de
outras tribos. Continuem a macular o vosso leito e irão sufocar nos vossos
desperdícios.
Mas na vossa perdição brilhareis em chamas ofuscantes acendidas pelo poder de
Deus que vos conduziu e que, por desígnios só por Ele conhecidos, vos deu poder
sobre estas terras e sobre o homem de pele vermelha. Este destino é para nós um
mistério. Não o compreendemos quando os búfalos são massacrados, os cavalos
selvagens subjugados, os recantos secretos das florestas ficam impregnados do
odor de muitos homens e as colinas desfiguradas pelos fios falantes. Onde está
a floresta virgem? Desapareceu. Onde está a águia? Morreu. Qual o significado
de abandonar os pôneis e a caça? É parar de viver e começar a vegetar.
É nestas condições que vamos considerar a oferta da compra das nossas terras. E
se aceitarmos será apenas para ficarmos seguros de recebermos a reserva que nos
prometeram. Talvez aí possamos acabar os nossos dias e quando o último homem de
pele vermelha tiver desaparecido desta terra, e a sua recordação não for mais
do que a sombra de uma núvem deslizando na pradaria, estes lugares e estas
florestas abrigarão ainda os espíritos do meu povo. Assim se vendermos as
nossas terras amai-as como as temos amado e cuidai delas como nós cuidámos. E
com toda a vossa força e o vosso poder conservem-na para os teus filhos e
amem-na como Deus nos ama a todos.
Sabemos uma coisa: o nosso Deus é o mesmo Deus. Ele ama esta terra. O próprio
homem branco não pode fugir ao mesmo destino. Talvez sejamos irmãos, veremos.